Chamada para submissões: dossiê de "Educação indígena"

2026-07-14

Chamada para Submissões – Dossiê Temático

Educação indígena: mundos, saberes e práticas pedagógicas em movimento

O Censo Demográfico de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelou um expressivo retrato da diversidade étnica e linguística dos povos indígenas no Brasil contemporâneo. São 1.694.836 pessoas pertencentes a 391 etnias, povos ou grupos indígenas, falantes de pelo menos 295 línguas e presentes em terras indígenas, aldeias, cidades e diferentes contextos territoriais em todas as unidades da Federação.

Essa diversidade expressa uma extraordinária pluralidade de modos de existência, conhecimentos, línguas, cosmologias e formas de compreender, produzir e habitar o mundo. Os povos indígenas, em sua multiplicidade, constituem presenças fundamentais na história e no presente do país e produzem conhecimentos indispensáveis para pensarmos outros futuros possíveis diante dos desafios sociais, educacionais, culturais e ambientais contemporâneos.

No campo da educação, essa pluralidade nos convida a reconhecer modos próprios de ensinar e aprender, construídos e transmitidos ao longo de gerações por meio das oralidades, das relações comunitárias, das línguas originárias, das ancestralidades, das espiritualidades, das práticas cotidianas e das relações com os territórios e com os diferentes seres que compõem o mundo. São processos educativos que antecedem e ultrapassam a instituição escolar, e que permanecem vivos e em movimento, expressando concepções próprias de infância, aprendizagem, coletividade, pessoa, território e produção de conhecimentos.

Ao mesmo tempo, a educação escolar indígena constitui uma modalidade de ensino específica, diferenciada, intercultural, comunitária, bilíngue ou multilíngue, construída historicamente a partir das lutas e reivindicações dos povos indígenas e reconhecida por importantes marcos legais, entre os quais a Constituição Federal de 1988, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996) e as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Indígena.

A escola, instituição historicamente vinculada a processos coloniais e colonizadores, tem sido também apropriada, transformada e reinventada pelos povos indígenas a partir de seus próprios projetos políticos, pedagógicos, comunitários e territoriais. Nesse movimento, emergem experiências criativas de construção de outras escolas possíveis, nas quais os conhecimentos indígenas, as línguas originárias, as relações comunitárias e as cosmologias ocupam lugares centrais.

Para além das escolas indígenas, a Lei nº 11.645/2008 constitui um importante marco para toda a educação brasileira ao tornar obrigatório o estudo das histórias e culturas indígenas nos estabelecimentos de Ensino Fundamental e Ensino Médio, públicos e privados. Sua implementação desafia escolas, universidades, redes de ensino e instituições formadoras a enfrentar estereótipos, silenciamentos e invisibilizações históricas e a construir currículos e práticas pedagógicas comprometidos com a pluralidade epistemológica, a interculturalidade crítica e a justiça cognitiva e epistêmica.

Com esse propósito, a Revista Com Censo (RCC) convida pesquisadoras e pesquisadores indígenas e não indígenas, professoras e professores, estudantes, lideranças, educadoras e educadores, gestores e demais pessoas interessadas a submeterem trabalhos inéditos para o dossiê temático Educação indígena: mundos, saberes e práticas pedagógicas em movimento.

Com este número, esperamos ampliar e fortalecer a circulação de pesquisas, experiências educativas e conhecimentos relacionados à educação indígena, à educação escolar indígena e à presença das histórias, culturas e conhecimentos indígenas nos diferentes espaços educacionais, reconhecendo a diversidade epistemológica, linguística, territorial e cultural dos povos indígenas e suas contribuições fundamentais para a construção de outros modos de pensar, ensinar, aprender e fazer educação.

 

Objetivo

Reunir pesquisas, reflexões e relatos de experiências contemporâneas produzidas por pesquisadoras e pesquisadores indígenas e não indígenas, professoras e professores, estudantes, lideranças e demais sujeitos envolvidos com o campo educacional dedicados a compreender e analisar experiências, conhecimentos, conquistas, desafios e possibilidades relacionados à educação indígena, à educação escolar indígena, às políticas públicas educacionais, às línguas indígenas, às práticas interculturais e à implementação da Lei nº 11.645/2008.

Pretende-se, assim, contribuir para o fortalecimento da produção e da circulação de conhecimentos sobre as múltiplas experiências educativas dos povos indígenas e para a valorização de seus saberes, línguas, cosmologias e pedagogias.

 

Escopo

A RCC recebe submissões inéditas em português, espanhol e inglês, contemplando os seguintes gêneros textuais:

  • Artigos científicos, resultantes de pesquisas teóricas ou empíricas;
  • Relatos de experiência;
  • Resenhas críticas.

Excepcionalmente para este dossiê, também serão acolhidos manuscritos produzidos em línguas indígenas brasileiras, desde que acompanhados de tradução integral para o português. Serão igualmente aceitas versões bilíngues, em língua indígena e português, com o propósito de fortalecer a visibilidade, a valorização e a circulação das línguas originárias como línguas legítimas de produção, elaboração e compartilhamento de conhecimentos.

O dossiê incentiva especialmente a submissão de trabalhos de autoria indígena, bem como produções construídas em diálogo e colaboração com comunidades, organizações, escolas e pesquisadores indígenas, além de trabalhos interinstitucionais e interculturais.

 

Eixos temáticos

Os trabalhos podem contemplar a relação entre povos indígenas e educação em seu sentido amplo e variado. Em termos temáticos podem dialogar com os eixos que se seguem.

 

Eixo 1 – Educação indígena: modos próprios de ensinar, aprender e produzir mundos

Este eixo acolhe trabalhos dedicados aos processos educativos próprios dos povos indígenas, compreendidos em suas dimensões ontológicas, epistemológicas e pedagógicas a partir de suas relações históricas, comunitárias, territoriais, linguísticas, socioculturais, cosmológicas e espirituais.

Interessam pesquisas e experiências que abordem as múltiplas formas de produção, transmissão, circulação e transformação dos conhecimentos indígenas, considerando dimensões como oralidades, ancestralidades, territorialidades, cosmologias, espiritualidades, línguas originárias, artes, práticas comunitárias, infâncias indígenas, relações intergeracionais, conhecimentos ecológicos, corporeidades e outras formas próprias de ensinar, aprender e produzir mundos.

O eixo busca reconhecer a educação indígena como um conjunto plural e dinâmico de processos educativos que se constituem nas relações entre pessoas, coletividades, territórios, memórias, seres e mundos, em diferentes contextos de existência indígena.

 

Eixo 2 – Educação escolar indígena: direitos, políticas, desafios e reinvenções da escola

Este eixo reúne trabalhos sobre a educação escolar indígena enquanto modalidade específica, diferenciada, intercultural, comunitária, bilíngue ou multilíngue, historicamente construída a partir das lutas dos povos indígenas e de seus direitos educacionais.

São bem-vindas pesquisas que discutam políticas públicas, currículos, formação de professores indígenas, gestão escolar, línguas indígenas, materiais didáticos, projetos político-pedagógicos, práticas educativas, direitos educacionais e experiências de escolarização em diferentes territórios e contextos.

O eixo também acolhe reflexões sobre os processos por meio dos quais povos indígenas se apropriam, tensionam, transformam e reinventam a instituição escolar, historicamente constituída como instrumento colonial e colonizador, fazendo dela um espaço de afirmação linguística, cultural, política, territorial e epistemológica.

Interessam, portanto, tanto análises das políticas públicas para a educação escolar indígena quanto experiências criativas de construção de outras escolas possíveis, formuladas a partir dos projetos, conhecimentos, perspectivas e modos de existência dos próprios povos indígenas.

 

Eixo 3 – Interculturalidade e temática indígena na escola: Lei nº 11.645/2008, currículos e formação docente

Este eixo acolhe trabalhos dedicados à presença das histórias, culturas, línguas, conhecimentos e perspectivas indígenas nos diferentes espaços educacionais, com especial atenção à implementação da Lei nº 11.645/2008 e do artigo 26-A da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.

São esperadas contribuições sobre formação inicial e continuada de professores, produção e análise de materiais didáticos, currículos, práticas pedagógicas, projetos educativos, literatura indígena, ensino das histórias e culturas indígenas e experiências desenvolvidas em escolas, universidades, redes de ensino e outras instituições educativas.

O eixo busca reunir reflexões e experiências comprometidas com o enfrentamento de estereótipos, preconceitos, silenciamentos e invisibilizações históricas, considerando o exercício crítico da interculturalidade e a construção de práticas educativas orientadas pela pluralidade de saberes e pela justiça cognitiva e epistêmica.

 

Submissões em línguas indígenas

Como forma de reconhecer a diversidade linguística dos povos indígenas e incentivar a circulação dos conhecimentos produzidos em suas línguas originárias, este dossiê acolherá trabalhos redigidos em línguas indígenas brasileiras.

As submissões poderão ser realizadas:

  • Integralmente em língua indígena, acompanhadas de tradução integral para o português;
  • Ou em formato bilíngue, em língua indígena e português.

Recomenda-se que as autoras e os autores indiquem a língua utilizada, o povo indígena ao qual ela está vinculada e, quando pertinente, sua variante linguística. Nos casos em que a tradução for realizada por pessoa distinta das autoras ou dos autores do manuscrito, recomenda-se a identificação e o devido reconhecimento da pessoa responsável pela tradução.

Ao acolher produções em línguas indígenas, o dossiê busca contribuir para seu reconhecimento não apenas como objetos de estudo, mas como línguas vivas de pensamento, criação, produção intelectual e elaboração de conhecimentos.

 

Período de submissão

As submissões estarão abertas entre 13 de julho e 31 de agosto de 2026.

 

Editores convidados

Alessandro Roberto de Oliveira – Doutor pela Universidade de Brasília (UnB) e professor da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Brasília.

Contato: alessandrooliveira@unb.br

 

Maria Zenaide Gomes de Castro – Doutoranda em Educação pela Universidade de Brasília (UnB) e professora da Educação Básica da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (SEEDF). Integra o Grupo de Pesquisa Educação, Saberes e Decolonialidades (GPDES/UnB) e desenvolve pesquisas sobre educação indígena, educação escolar indígena, infâncias indígenas, interculturalidade e decolonialidade.

Contato: zenaidegc@gmail.com